Cartas de Agosto (12)





“ESTA LEMBRANÇA É TÃO VIVA COMO UM RAIO DE LUZ”

Ele foi um bebê lindo! Nasceu grande, fofo, risonho, tinha as bochechas rosadas. Quando eu o recebi nos braços foi como um presente de Deus. Eu chorei de alegria e o apertei contra o peito, beijei, mas o menino chorava sem parar. Já naquele momento era como se ele se esquivasse do meu contato.

Eu não me importava. Pra mim só o que importava era que ele estivesse feliz. Passei minha via toda vivendo pra ele, em função dele. Não tive mais filhos porque ele já me bastava. Era toda a minha felicidade. Talvez este tenha sido o meu erro. Otávio nunca precisou dividir nada com ninguém. Era tudo dele, só para ele. E todos os meus olhares, toda a minha atenção também eram dele. O pai sempre dizia que eu mimava o menino, mas mãe... Nem ligava. Cobria de carinhos, acho até que sufocava.

Ele sentia vergonha de mim. Nunca me apresentou para os amigos e nunca trouxe uma namorada em casa. Demorou pra entender a situação. O pai falava que ele não gostava de nós, mas eu não poderia imaginar que fosse verdade porque ele era o meu filho amado. E eu fazia tudo por ele. Tudo o que puderem imaginar, desde a limpeza impecável do lar e de todos os seus pertences até todas as mínimas vontades culinárias. Eram todas atendidas sem que precisasse pedir. Então, um dia eu presenciei ele dizendo a um amigo, já puberdade, que eu era a empregada da sua casa. Eu não deixei que ele me visse, tive constrangimento de contar para meu esposo porque ele estava certo. Meu filho tinha vergonha de nós.

Eu retornei para casa e chorei tanto que fiquei toda inchada. Existem coisas que não dá para esquecer doutor. Quando ele chegou me repudiando fiquei com vontade de dar uma surra. Eu fiquei possessa. Como podia me tratar daquela maneira, eu que fazia tudo por ele. Pedi que sentasse e como não fui atendida, berrei que sentasse. Ele se assustou e após relatar o que tinha visto, ele chorou e me informou que era a mais pura verdade. Ele tinha vergonha de mim, do pai não, apenas de mim. Uma caipira – dizia ele. Uma mulher que não sabia nem conversar, que arrastava as chinelas e nem se arrumava, eu saia de casa de qualquer jeito. Fiquei com vontade de sumir. Eu mesma me olhei e comprovei que era isso tudo, mas não era motivo para ele não me assumir. Fiquei sem saber o que fazer e fui me deitar. Permiti que meu filho me humilhasse e deixei a depressão tomar conta de mim. Eu nunca mais fui a mesma e acho que no fundo eu sempre quis ser amada por ele. Eu quis ser aceita como mãe, mas não fui. Nosso relacionamento não passou disso e eu ainda me questiono onde foi que errei.

Existem tantos equívocos, mas nunca o de faltar amor. Eu o amei e ainda o amo. Ele é meu filho amado e é tão triste porque por mais que a pessoa lhe ofenda, por mais que você deseje não sentir a ofensa, isso lhe magoa muito. Eu desejava não ter sentido tanto, mas senti. Acredito que a explicação disso seja os vários deslizes que cometi no pretérito, mas todos nós temos falhas, não existe o perfeito por aqui. Considero que não fui uma boa mãe porque se fosse, ele seria um bom filho, então admito que fracassei e isso me entristece ainda mais.

Recebi a concessão de recebê-lo novamente e isso me amedronta porque ele é o meu tendão de Aquiles. Estou estudando, me reestruturando e o tratamento irá me ajudar, mas a insegurança ainda mora em mim. Eu agradeço pela oportunidade. LUÍZA
01/08/17

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“AS MULHERES TÊM QUE SER VALORIZADAS PORQUE TODOS NÓS SOMOS IGUAIS E O RESPEITO É BOM PARA TODOS”

Ninguém sabe qual é o melhor caminho. Nós temos uma ideia do que devemos fazer, mas na hora H tudo pode acontecer. Isso porque não estamos sozinhos. Quando no plano espiritual fica fácil almejar porque sabemos onde devemos corrigir, mas nos reencontramos com várias pessoas e depende delas se tudo sairá a contento. Quando você assume que fará os acertos, responde por si e não pelos outros. É muito confuso, mas é certo.

Eu pretendia reparar tudo o que ocorreu conosco. Sei que a tratei de qualquer jeito quando fui seu esposo. Ela não merecia. Eu a traí e nunca fui para ela o companheiro que todas as mulheres merecem.

Desencarnei e reencarnei novamente numa trajetória onde não me encontrei com a Celeste. Nesta, fui mulher e casei com um homem terrível que conseguiu me fazer colher tudo o que necessitava. O marido cruel me traia e tratava com violência no lar. Me fez sentir humilhações de todos os tipos. Desencarnei e percebi que as mulheres têm que ser valorizadas porque todos nós somos iguais e o respeito é bom para todos. Tratar o outro como queríamos ser tratados deve ser lei. Eu aprendi e quando reencarnei novamente pude entrar em contato com Celeste que fora minha filha.

A Celeste parece que se esforçou para me devolver tudo o que a fiz passar, mas eu já não era o mesmo. Estava tão empenhado em produzir o amor que pudesse curar nossas mazelas. Eu era o pai mais cordial e afetuoso que pudesse conhecer e a menina malvada do início até o fim. Quanta dor de cabeça.

Eu sei que grande parte de tudo aquilo era justificável por conta do nosso passado, mas entendam, eu já era outra pessoa. Agora como o pai de uma moça muito desrespeitosa e leviana. Foram várias as vezes na qual saí perambulando pela cidade de madrugada procurando a desvairada. Cheguei a tirá-la dos braços de cafajestes. Ela se drogava e quebrava a casa toda. Eu já estava cansado de tentar colocá-la nos eixos. Nunca pensei que pudesse sofrer tanto por alguém. Sim, eu a amava.

Valeu para despertar em mim sentimentos que eu desconhecia, mas eu não acredito que fomos feitos para fazer sofrer uns e outros. Nós fomos feitos para sermos divinais, humanos, bons de coração, ternos, solícitos, não isso que somos. Egoístas, orgulhosos, mesquinhos, loucos. Eu já não sabia se a internava ou se me esquivava dela e por fim tive a triste notícia do seu falecimento.

Quanta dor no meu velho coração. Um pai enterrando a própria filha... A dor é muito grande. Depois do meu desencarne eu tive a certeza do fracasso, mas o amor não se acabou por isso. Eu só pensava nela e desejei saber onde estava, assim que conjecturei a realidade das coisas deste lado. Quando fui informado que ela vagava fiquei desesperado. Precisei ter merecimento como trabalhador disciplinado para conseguir socorrê-la. Levou um longo tempo para iniciar o meu período de procura e a encontrei com a graça de Deus. Por isso, ela está aqui entre os seus pacientes, doutor.

Eu lhe peço de todo o coração para que a trate com cordialidade porque sei que ela é difícil. Tenho esperanças que recobre a realidade e que, um dia, possamos nos entender. Com agradecimentos José MANOEL
01/08/17

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“EU ME SINTO MAL DE TER A CERTEZA DAS MINHAS VÁRIAS IMPERFEIÇÕES”

Era tudo tão lindo, impecável. Uma linda casa com móveis maravilhosos. Decorada com o maior bom gosto e pra quê? Eu investi tudo o que podia naquele casamento e fiquei tão sozinha. Eu tramei que eles se separassem e o conquistei, mas não era para ela ser dele. Ridículo! Estudávamos juntos na faculdade e muito me irritava vê-lo com aquela suburbana, menininha sonsa. Ajeitei tudo para que ele pensasse que ela o havia traído. Marco sempre foi tão tolo. Imagina se a Lídia ia traí-lo?

De jeito nenhum. Funcionou tão bem que nenhum dos dois nunca foi tirar satisfação. Eu me aproximei e consegui me casar com o moço rico. Foi perfeito se não fosse o fato dele não me amar e nem eu a ele. Não dá pra mentir deste lado né? Todo mundo percebeu. Marco passou a beber quando percebeu que eu não podia ter filhos. Foi uma desgraça porque eu nunca imaginei que fosse seca. Seca mesmo. Não adiantava tratamento, o que fosse não tinha jeito pra mim.

Aí ele me veio com a chance de adotar uma criança. Quê? Saindo de mim já seria difícil de aguentar, imagina dos outros. Não adianta, não nasci pra ser mãe. Fiquei pensando no choro, a correria, cólica, coco, brinquedos espalhados e a criança grudenta em cima de mim. Não dava não. Olhei para a cara dele tão bonzinho que dava raiva. E tentei disfarçar o descontentamento. Vou falar que é muito duro fingir o tempo todo.

Eu comecei a me achar uma pessoa terrível porque aquele homem só queria uma família e eu queria aproveitar aquela vida boa. Não tinha ânimo pra ser esposa que espera com carinho, beijinho, se preocupa como foi o dia, nem tinha dom pra atenciosa. Não nasci pra cuidar de criança e então, fiquei me perguntando para quê eu servia. Não achei a resposta, eu queria ser madame, mas era só isso?

Escrevi uma carta, tomei coragem, fiz uma bela mala e fui embora. Nem olhei para trás. Passei grande parte da minha vida irritada com esta decisão porque contar as moedas sempre foi um sofrimento para mim, mas eu não podia estragar a vida dele para sempre porque eu era gananciosa. Eu ainda não sei o que Deus pretende comigo. Queria ser boa, mas não tem nada em mim que remeta a isso. E eu me sinto mal de ter a certeza das minhas várias imperfeições.
VIVIANE
01/08/17

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“AS PESSOAS DEVIAM SE ENVERGONHAR DE OLHAR PARA HOMEM CASADO”

Eu pensei que pudéssemos ser felizes novamente se tentássemos com vontade. Eu me lembrava de quando nos casamos e quando nasceu o nosso primeiro filho. Eu fui tão feliz. Casei com ele por amor e pretendia viver a vida toda junto. Tive três filhos, mas a vida foi ficando diferente e eu me perguntava por que as pessoas mudam tanto com o passar do tempo. É como se, de repente, percebessem que não gostam da vida que têm.

Eu era dona de casa e cuidava da minha família com amor. Em tudo via felicidade, graça. Percebi que o Léo chegava em casa contrariado e meus assuntos o irritavam. Ele cansou de me deixar falando sozinha. Eu sentia, mas achava que era problema no serviço. Ele sempre foi um bom homem. Demorei pra perceber e como não compreendia uma amiga resolveu abrir meus olhos. Ela foi à minha casa e parecia se divertir me dando a notícia que o Léo estava saindo com uma moça do serviço. Eu chorei tão desesperada e ela falou que só tinha ido me avisar, foi embora me largando no maior chororô.

Perguntei se ele tinha alguém, falei, falei tanto e o que eu recebi foi um soco. Nunca imaginei que uma mulher pudesse virar a cabeça de um homem daquela maneira. Pensei o que ela tinha de tão bom que eu não tinha.
Será que era mais agradável do que eu?
Mais bonita?
Mais jovem?
Mas, ela não tinha a nossa história, nossos filhos, isso não bastava? Eu não sabia o que fazer porque a gente não para de gostar de uma hora para outra e mesmo sendo agredida eu só queria que tudo voltasse a ser como era antes. Queria que ele me olhasse como antes, com carinho, com respeito e amor.

Eu olhei pra ele que estava tão distante de mim e desejei pedir que ele reconsiderasse a nossa vida, mas ele não me ouvia. Dias depois cheguei a ouvir que ela havia feito macumba pra ficar com meu marido. Não foi só isso. Ninguém invade uma família quando ela está blindada com amor, com Deus. Quando Jesus está no lar, não existe macumba, praga ou olho gordo. O que acontece é que as pessoas se iludem. As pessoas orgulhosas acham ótimo quando outras pessoas apreciam a sua canalhagem. Sair por aí com uma bonitona a tira colo é lindo para algumas pessoas que não tem vergonha na cara e não prezam a família.

Eu parei de chorar e arrumei as coisas dele. Falei pra ele ir para a casa dela que seria melhor já que eu não tinha mais nada de bom a oferecer. Eu não iria atrapalhar a vida deles, mas me desse pelo menos a satisfação de sair íntegra, sem ser apontada. Eu e nossos filhos não precisávamos participar daquilo tudo. Ele se foi e depois de dois meses voltou ajoelhado.

Eu pensei tanto, em breves minutos o que poderia ser da nossa vida se eu o aceitasse e se não. Eu sofri e demorei para reconstruir a minha imagem mental de mulher valorosa. Ele escolheu, eu olhei para ele e o perdoei. Disse que ainda o amava e que sentia muito tudo o que vivemos nos últimos tempos, mas eu não queria mais aquele homem em minha vida. Ele foi embora e eu ainda me lembro do sorriso dele.

 Acho que nunca deixei de amá-lo e sentir sua ausência. As pessoas deviam se envergonhar de olhar para homem casado. Lar é sagrado e deviam pensar tanto antes de mexer num lar, numa família. Foi uma pena tudo o que aconteceu.
LILIANE  
01/08/17 



Foto cedida por Magno Herrera Fotografias


“NENHUMA PALAVRA SE PERDERÁ NO ANONIMATO”

       Era como loucura. Um pequeno mundo separado dos demais. Fui criado com mais três irmãos. Eu fui ensinado a vida toda a ser homem, machão. Recebi orientações para me comportar como um sedutor. Meu pai e irmãos eram namoradores e falavam de uma forma sobre as mulheres que me davam raiva, mas eu me mantinha em silêncio porque seria ofendido e discriminado se realmente me assumisse.

       Eu chorei. Muitas vezes, desejei não ser daquela família. Não ser daquele jeito. Me esforçava tanto para concordar com eles que, por alguns momentos, perdia minha própria identidade. Eu precisava mostrar que éramos iguais e eu tinha minhas namoradas. Todas gostavam de mim. Eu sempre fui educado e cordial. Elas diziam que eu era um cavalheiro e eu tentava ser mesmo. Achava que deviam ser bem tratadas como a mamãe devia ser.
      
       Sempre respeitei as mulheres e apreciava todo o universo feminino. Não sei se posso afirmar minha homossexualidade naquela época. Eu não poderia ter pensado nisso e segui os trâmites da sociedade convencional. Encontrei uma moça na faculdade por quem nutri um afeto sincero e me casei com ela. Sempre fiz escolhas que pudessem conservar nossa integridade social e, por isso, nunca tiveram nada a falar de mim, de nós. Fui bom esposo e pai, ótimo filho, irmão, mas não fui feliz. Sempre desejei algo que não me fora apresentado e ainda não compreendo.
      
       Em minha mente refletiam algumas intimidades que não fui capaz de clarear para mim mesmo e recentemente comecei a investigar se eu não fui o maior preconceituoso que já conheci. Acredito que fui destes que temem tanto o que os outros irão dizer que se escondem a vida toda. Tão orgulhosos preferem viver a vida que os outros escolhem para si do que tomar partido, viver de cabeça erguida, apesar das manifestações de contrariedade, apesar das pedradas.

       Eu vaguei por tanto tempo entre os homossexuais e ouvi muitos despautérios. Ouvi diversas grosserias e tive que correr, me esconder porque diziam que eu era uma vergonha.
       Eu não me assumi, mas não era pra ser não é?
       Eu ainda tenho os meus questionamentos porque sei que vivi uma mentira, mas fui aquilo que devia ser. Se estive encarnado num corpo de homem era pra vivenciar todas as expectativas de um homem e isso eu fiz, mas percebi que não fui sincero na minha posição porque eu vivi para mostrar aos outros. Nada foi com sincera devoção.

Eu desejei os homens que passaram por mim e inconsciente, trai minha esposa diversas vezes. Mentalmente fui desleal, traiçoeiro e mentiroso, por isso, sofri na região inferior. Ainda estou muito confuso e preciso me tratar. Aguardo com reclusão o momento em que tudo será desvendado. Agradecido LEONEL
06/08/17

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“DEUS ESCOLHE CAMINHOS QUE NÃO CONSEGUIMOS COMPREENDER, MAS É SEMPRE PARA O NOSSO BEM”

       Sei que fui tirana, vilã.
       Eu era boa. Sentia que poderia constituir família e ser boa mãe e esposa leal. Nem acreditei quando um dia olhei no espelho e revi tudo o que tinha ocorrido. Quando conheci Marcílio não imaginei que ele fosse casado. Tinha uma filha ainda pequena. Ele me olhou com tanto carinho e convidou para sair. Ele não tinha aliança e nem demonstrou compromisso com outro alguém, assim, fomos nos encontrando e eu me apaixonei. Acreditava que estaria bem ao seu lado e me deixei envolver.

Eu não sabia, mas um dia nossos encontros já haviam tomado proporções enormes e, após conhecer minha família, ele me falou de sua real situação. Eu chorei e disse que não poderia ficar com ele, mas ele me pediu paciência e jurou que iria se separar. Eu não acreditei e me afastei dele, dois meses depois ele me reaparece dizendo que estava livre. Era verdade e depois de tudo solucionado nós nos casamos. Eu estava feliz e achei que poderia formar minha família com aquele que amava.

Percebi que não se pode apagar tudo porque de tempos em tempos a menina vinha ficar conosco e ela me detestava. Era uma pestinha de cinco anos, tremendamente esperta que me fazia tantos desaforos que eu não via a hora para ela desaparecer da minha casa. A situação poderia ter sido contornada, se não fosse pela mãe da menina.

A praga disse que não tinha condições de mantê-las e deu a guarda ao meu esposo. Ele ficou muito satisfeito e não podia imaginar que nós não nos entendíamos. Ele tinha um amor enorme pela criança e achava que eu também gostava dela porque eu nunca reclamei. Tive que aguentar e achei que seria fácil, afinal tinha a escola e mais várias atividades que tratei de arrumar para ela, mas o momento que estava em casa era um horror.

Não dá pra imaginar como uma criança consegue orquestrar tanta maldade. Sério, eu fui uma vítima. Aí entramos em guerra. Eu me igualei e comecei a fazer de tudo para contrariá-la, mas éramos espertas. Fazíamos tudo sem que ele soubesse. Vivemos assim por dois anos até que ele adoeceu. Caiu da escada e precisou ficar se reestabelecendo por alguns meses. Não houve como disfarçar para sempre e eu não aguentei.

O dia em que parti, me olhei no espelho e considerei o fato de que era uma pessoa amarga, vaidosa e infantil. Estava deixando o marido porque não consegui ganhar a confiança da filha dele. Eu não soube me aproximar da criança. Ela me chamava de madrasta e falava da Branca de Neve.

Quando desencarnei me vi como a madrasta da Branca de Neve e passei assim por anos, até que fui socorrida. Quando cheguei aqui foi muito pior porque me foi revelado que aquela menina deveria ser minha filha. Ela deveria ter sido criada por mim e era um desafeto do passado colocado ao meu lado para que pudéssemos resgatar. Eu não pude ser mãe dela, eu não consegui. Deus escolhe caminhos que não conseguimos compreender, mas é sempre para o nosso bem.
ALESSANDRA
06/08/17

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“O AMOR É DIVINAL”

       Foi tão fácil te amar. Apesar das nossas dificuldades tudo transcorreu de maneira doce e prazerosa. Eu sempre fui um homem esforçado. Nunca tive nada. Não tive dinheiro, bens, não tive posição social, estudo ou beleza. Nada que me tornasse privilegiado. Eu estava trabalhando.

       Eu era feirante e conheci a Amália, enquanto ela comprava batatas. Como estava linda. Com avental e tudo, não importava. Quem é linda, é linda de qualquer jeito. Senti o seu perfume e não ouvi mais os gritos dos meus colegas que tentavam vender as leguminosas. Eu segurei na mão dela e disse que estava apaixonado. Ela ficou assustada e quis deixar as batatas, mas eu me desculpei. Eu construí uma vida e uma família com aquela mulher que foi tudo para mim. Nós conversávamos por horas e eu nunca me cansava de admirá-la. Ainda me pergunto por que existem pessoas que não se sentem imensamente felizes por terem família.

       Homens que não sabem apreciar as pessoas boas que têm no lar. Minha esposa viveu comigo por quarenta anos e precisou passar por momentos difíceis quando adoeceu. Quando ela teve Alzheimer achei que iria morrer de tanta tristeza. Cuidei dela todo o tempo e não aceitei quando minha filha disse que a colocaria num internato para que pudesse ser melhor assistida. Eu poderia cuidar dela e fiz isso.

       Fazia tudo com o maior carinho porque sei que ela também faria por mim, mas o pior foi perceber que as nossas lembranças estavam se apagando. Ela não me reconhecia mais. Sei que gostava de mim, ela me amava, mas não sabia quem eu era. Eu a limpava e alimentava. Fazia tudo para que estivesse confortável, mas ela olhava para mim procurando respostas e não tinha de onde tirá-las.

       Eu fui egoísta porque desejava que ela me desse carinho e atenção. Foi um momento tão pessoal, tão particular. Ela desencarnou e, apesar de toda atenção e cuidados que eram necessários, eu senti falta. A ausência dela deixou um vazio enorme. Eu desencarnei cinco anos depois e vim direto para cá. Quando cheguei fui informado que tudo ocorreu para beneficiar nós dois porque estava nos nossos planos passarmos juntos por esta prova e expiação. Eu consegui fornecer a ela os cuidados que foram necessários com todo o meu amor. Reencontrei a Amália ainda necessitando de tratamento aqui para se recuperar das mazelas físicas, mas hoje ela está totalmente recuperada. Como é lindo o seu sorriso quando me vê. Eu me sinto amado e amparado por Deus. O amor é divinal. Eu estou agradecido por tudo.
JORGE AFONSO
06/08/17
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“NÓS SOMOS CONSTRUTORES DO NOSSO PRÓPRIO DESTINO”

Ela falava e eu não queria ouvir porque achava terrível aquela manipulação. As pessoas insistem que adolescentes são revoltados, mas não é isso. É insuportável quando você quer uma coisa e as pessoas não permitem que você as faça, que você as tenha. Eu tinha que ouvir o que a minha mãe dizia o tempo todo e eu achava que minha mãe exagerava em tudo.

Ela pegava muito no meu pé. Em parte por ser filha única, em parte por ela estar separada do meu pai, ou seja, tudo sobrava pra mim. Ele foi embora e tive que ficar. Se ela era tão insuportável assim, por que eu tinha que ficar com ela? Eu sempre almejei ir embora e me preparava para isso quando tudo aconteceu. Aquela situação poderia ter sido evitada se eu tivesse ouvido o que ela dizia, mas eu quis enfrentá-la.

Minha mãe sempre falou que eu era promiscua. Que eu não devia andar cercada de rapazes. Ela me perguntava por que eu não tinha amigas e não me comportava diferente.

Roupas e palavras de mulher vulgar.

Eu detestava ouvir isso e fazia pra irritá-la, mas eu não pensei que todo mundo via isso. Decidi ir acampar com meus amigos e realmente não costumava andar com meninas. Elas não gostavam muito de mim. A real é que elas também falavam comigo como a minha mãe. No passeio não percebi o que eles estavam tramando e me deixei levar.

Foram cinco rapazes que me molestaram. É difícil conviver com isso depois. Você não sabe como vai se olhar no espelho, nem como vai erguer a cabeça. Eu nem sabia como iria embora e acabou que quando cheguei em casa parecia que ela sabia de tudo. Eu desejei abraçá-la, mas fazia tanto tempo que eu não fazia isso, não fiz. Fui pro quarto e queria morrer. Eu pensei em me matar, mas era covarde ou esperta, nem sei. Nunca falei nada para minha mãe.

Decidi mudar de escola e de cara mudei meu jeito de ser. A experiência traumática foi suficiente para me reformar. Mudei o penteado, as roupas e a forma de falar. Fui para outra escola e arrumei um emprego. Minha mãe percebeu e se tornou mais carinhosa. Nós começamos a conversar. Estranho como nos tornamos amigas. Eu queria estar com ela e contar meus anseios, achava que só ela poderia me aconselhar.

Eu segui em frente e superei o que aconteceu. Arrumei um bom homem, formei minha família e apenas quando tive minhas filhas pude entender o sentimento de mãe. As inseguranças e preocupações. Eu também me importava com as roupas das meninas, o que as pessoas poderiam pensar delas e como iriam tratá-las.

Não desejo para ninguém o que vivi. As mulheres devem se respeitar. Saber se valorizar e imaginar que, infelizmente, as pessoas julgam e se sentem a vontade para tratar as outras pessoas como acham adequado. Eu passei pelo que devia para fazer as pazes com minha mãe e para que pudesse ser boa mãe com minhas filhas. Doeu, mas compreendi.
VERÔNICA

06/08/17

Foto cedida por Magno Herrera Fotografia


“TODOS SÃO CAPAZES DE, COM ESFORÇO E DIGNIDADE, ULTRAPASSAR SEUS OBSTÁCULOS”

Eu tinha tantas dúvidas. Eu não sabia o que fazer. De repente, você chega em casa e tem cobranças, tudo vencendo, aluguel...
Vai à geladeira e nada, no armário, nada e quando você chega no quarto tem mulher e crianças. Tristeza! Eu achei que aquele caminho fosse o mais razoável e também achei que eu não tinha nada a perder. Um amigo me falou que era infalível. Trabalho certo, dinheiro fácil e felicidade. Nem pensei. Fui ao local indicado e até emprestei dinheiro pra mulher fazer a mandinga.

Realmente funcionou e eu pensei que estava tranquilo porque nunca mais precisaria voltar lá. Foram dois anos de tranquilidade. Eu nunca me questionei como foi que ela conseguiu me fazer atrair um ótimo emprego, casa, carro e situação favorável. Eu só vivi. Chegou num ponto que eu não achava mais que tinha sido por causa do trabalho que encomendei, mas da minha capacidade. Eu me conscientizei que tudo o que tinha era por causa do meu esforço e, de repente, perdi tudo de novo.

Foi tolice porque eu aproveitei que estava sossegado e não construí uma base forte. Continuei morando de aluguel e, ao invés, de planejar uma moradia, comprei um super carro. No final perdi tudo de novo. Pra completar até no casamento as coisas iam mal. Lembrei de como havia saído do atoleiro e corri pra mãe de santo. Encomendei mais um trabalho. Ela ainda me avisou pra não debochar.

Falou que eu só perdi porque não dei crédito e o guia não gostou nada. Ele deu, ele tira... Tudo bem.

Entendi e fiz tudo direitinho. Daí foi só alegria. Recebi tudo de novo e não dei mais furo. Passei a frequentar o centro dela e a dar mostras da minha gratidão. Tive tudo o que quis. Nunca mais faltou nada no nosso grande lar. Agora era nossa casa e uma bela casa, carrão e a família feliz. Todo mundo tinha tudo o que queria, joias pra esposa, coisa e tal, mas felicidade não dura pela eternidade camarada.
Dia se foi e quando dei por mim tava me sentindo mal. Tudo o que tinha corria lá no centro e eles me avisaram que eu tinha que cuidar da saúde, mas quem disse que deu tempo. Enfartei. Passei pro outro lado sem nem ver e quem é que estava me esperando?

Um grupo de Espíritos que se ligou a mim quando eu ia buscar facilidades no centro. Foi duro demais. Fazer trabalho não é pra qualquer um. Muita dor, sofrimento de todo tipo, fome, sede de tudo.

Totalmente ligado à matéria. Tentava entender e apanhava, tentava falar e apanhava, se achasse que estavam agindo mal, nem precisava falar, ouviam meus pensamentos e apanhava, de chicote mesmo. Era arrastado e tudo o que eu tive de facilidades em vida, foi só tormento depois de morto. Que horror!

Foi muito tempo vivendo assim. Eu vim pra cá, pra este paraíso onde estou agora, há pouco tempo. Depois de tanta oração da minha mãe conseguiram me resgatar. Tô bem melhor, mas lembranças e o arrependimento ainda me machucam. Eu já aprendi que precisei expurgar porque a vida que eu tinha era a prova merecida e eu não aceitava. Nunca pedi pra Deus força. Coragem, trabalho honesto. Não, eu fui pedir um trabalho no centro. Eu fui pedir pros Espíritos facilitarem a minha vida e, desta forma, eu recusei os planos que Deus tinha pra mim. Se as pessoas soubessem doutor. Nunca fariam coisas deste tipo. Mexer com a espiritualidade só pra barganhar, mexer com o que não se conhece pra pedir favores. Todos são capazes de, com esforço e dignidade, ultrapassar seus obstáculos. Deus não quer ver ninguém sofrendo, só quer que avancemos. Agora eu sei.
TIAGO
20/08/17

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“TUDO O QUE FOSSE NECESSÁRIO PARA QUE CONTINUASSE BELA COMO SEMPRE”

Eu limpava o rosto e com todo cuidado me detinha em passar os cosméticos necessários para firmar minha pele, para evitar que ela tivesse manchinhas indesejadas. Tudo o que fosse necessário para que continuasse bela como sempre.

Os anos foram passando e eu passei a odiar as rugas. Como elas me irritavam. Achava um castigo de Deus minha pele tão linda, alva, de repente, ficar enrugada, escurecida. Tentava fazer tudo o que fosse ensinado para continuar com uma aparência jovem, mas eu atraí uma cicatriz terrível. Estava indo para o trabalho quando fui arremessada por um carro contra uma vitrine. Tantas vezes me observei nela. Eu sempre fui tão linda.

Após os cuidados médicos, após tirar as ataduras eles me aconselharam a olhar no espelho. Eu sabia que nunca mais seria igual e eu não queria ver porque sabia que estava terrível, mas eu olhei e realmente estava terrível. Eu nem de longe era a mulher que fui um dia. Eu gritei e quebrei tudo o que pude, dei o maior trabalho para a equipe médica, coitados. Tiveram que me sedar e meus familiares ficaram com tanta pena que esconderam os espelhos da casa. Eu não me via e vivi com depressão por mais de dez anos até que não aguentei mais aqueles olhares. Todos com pena, sem conseguir me fitar profundamente. Eu sabia o que eles pensavam e desejei desaparecer. Pra quê continuar daquela maneira? A minha vida tinha acabado. Eu me suicidei.

Acabei com aquele corpo que não era mais nada para mim, mas eu não sabia que não acabava com tudo e quando me dei conta de tudo o que estava acontecendo foi um horror. Eu presenciei tudo. Todos os preparativos, ouvi todas as conversas, as risadinhas das pessoas que viram meu corpo, ouvi o choro dos meus parentes e na urna foi o pior momento. Não estou autorizada para falar os detalhes, mas eu estive presente até o final. Não fui para o local onde muitos são encaminhados pelas ondas mentais. Eu fiquei naquele corpo como numa prisão. Vi o finzinho de tudo, senti toda a decomposição. E quando eu já estava cansada daquele delírio, senti um puxão e vi minha avó. Ela sorriu e eu dormi.

Acordei aqui sendo tão bem tratada. Estou feliz, muito feliz porque aqui é ótimo. Tudo seria melhor do que onde estava, mas aqui é ótimo. Eu agradeço por tudo, mas ainda não consigo me olhar no espelho. Tive tanto tempo para pensar e parecia que eu ouvia uma voz dentro de mim que direcionava meus pensamentos. Hoje sei que era meu instrutor. Eu fui muito leviana, fui muito vaidosa. Eu tinha uma adoração por mim mesma e isso não pode, não é natural. Isso também é doença. Eu passo por isso há muitas existências e devia ter esta prova de aprender a gostar de mim, ainda que feia, mesmo com a cicatriz. Eu deveria olhar o mundo e não apenas o espelho, mas eu não consegui.

O tratamento é necessário porque eu ainda estou doente. Ainda não suporto o fato de estar destruída e preciso me conscientizar porque em breve retornarei e serei muito feia. Ainda há muito a fazer.
ESTER
20/08/17

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EM BREVE SERÁ POSSÍVEL

Eu desejava um filho de todo o meu coração, mas meus pais achavam que eu devia servir ao Senhor em celibato. Não sabia explicar o porquê tinha uma fixação por crianças desde que era mocinha, menina de tudo, mas eu as adorava. Não tinha como discordar dos meus genitores e num determinado momento tudo estava arranjado, parti para o internato de onde suponha não sairia mais.

Nunca desisti da minha ideia e quando fomos ao interior eu desejei fugir. Aquilo não era a minha vida. A vida que escolhi. Eu não tinha interesse em namorar ou em me encontrar com homens, eu só queria um filho. Fugi e me escondi tão bem que eles partiram sem mim.

Eu não sei dizer o que foi dito as meus pais, acho que eles devem ter se desesperado, mas eles já não podiam com tantos filhos, acho que eu só era mais uma. Sem casa e lugar para ir, eu fiquei no banco da praça e ouvi quando duas senhoras falavam de mim. Elas se aproximaram e me ofereceram um local para ficar em troca de serviço, eu aceitei. Trabalhei lá durante dois anos e percebi que o filho da senhora me observava diferente. Ele se insinuou e nós namoramos. Eu me entreguei a envolvente paixão de forma inocente. Depois disso, ele nunca mais me olhou e eu fiquei muito triste, comecei a me sentir mal e pensei que estivesse doente, mas não, eu estava grávida e quando a senhora descobriu me mandou embora. Mal sabia ela que eu estava esperando o seu neto.

Saí de lá com dois meses de gravidez e nem sabia o que fazer da vida, mas eu estava feliz com meu filho na barriga. Ele era tudo o que eu queria e já tinha conseguido. Era meu, só meu. Fui embora e com o pouco que tinha peguei o ônibus sem rumo e segui. Em outra cidade, arrumei emprego, moradia e trabalhei muito, muito mesmo. Meu filho nasceu e foi a luz dos meus dias. Menino bom que nunca me deu um pingo de trabalho, um nada. Tudo era por ele.

Trabalhava tanto que logo estava na minha casinha decente e meu Marcelo já tava mocinho quando eu precisei de um tratamento. Nem sabia que tava doente e o menino teve que trabalhar. Que dó que eu sentia do menino, mas em nada reclamou. O bichinho fazia o que tinha que fazer pra levar a comida pra casa. Eu já pensava que aquela doença ia durar pra sempre, mas de repente, acabou e eu vim parar aqui. Ah! Seu moço, que tristeza. Eu que fiz tudo pra ter meu menino comigo fui adoecer. O tempo em que ficamos juntos não deu pra nada não. Tamanho amor que eu sinto aqui dentro do peito.

Tô doida pra saber dele, meu Marcelo. Doidinha mesmo viu?! Ninguém me fala nada. Tô sem saber o que foi feito do meu menino. Eu to achando que foi castigo por ter fugido do convento. Por ter fugido dos meus pais. Eu nem sei quanto tempo faz tudo isso, mas parece que foi ontem esta história toda e o menino como ficou? Difícil demais carregar um amor desse no peito. Eu sabia que ele era um tudo pra mim, por isso, que eu fugi porque só ele que importava pra mim e eu fiquei sem ele. Por quê?
LAZINHA
20/08/17

Nota do escritor: havia se passado muito tempo. Dona Lazinha foi socorrida e passou muito tempo no posto de socorro porque não aceitou a separação do filho. Tanto tempo se passou que Marcelo desencarnou no tempo devido e passou por provas necessárias, foi aceito na colônia, procurou pela mãe e obteve autorização para vê-la. Marcelo está próximo, apenas aguardando o progresso dela para fazer contato. Em breve será possível.

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“A VIDA NÃO ACABA É SÓ UM ESPAÇO DE TEMPO”

Nossas vidas se cruzam, nossos esforços beneficiam uns e outros. Eu não entendia, eu não aceitava nada disso. Eu era uma mulher sofisticada, educada, intelectualizada, porém rude no sentido da sensibilidade. Não me importava com os outros, nem os enxergava. A vida era apenas, um amontoado de necessidades materiais, onde as pessoas precisam estar bem arrumadas e saber se socializar para lucrar com isso, mais nada.

No fundo muitos pensam assim, mas não podem dizer porque é feio. Tudo bobagens. Convenções. Demorei pra entender que os valores são outros. Às vezes, a gente tem que sentir doer pra enxergar além do nosso umbigo.
Eu era jovem e tinha uma carreira tão promissora. Não dependia de ninguém para nada e nem ligava para família, eles me irritavam demais. Até que eu fiquei doente. Doente de um jeito que não aguentava nem andar. Precisava de ajuda pra tudo e quem foi me ajudar? Meus familiares e mesmo me irritando, eu precisava deles e tinha que aguentar. Minha mãe se tornou uma amiga leal, meu pai um segurança amigo, meus irmãos eram as melhores pessoas que eu conhecia e toda a irritação foi se transformando num sentimento esquisito que eu não sabia explicar. Eu ainda tinha uma rebeldia dentro de mim, revolta, mas a vida que eu tive que assumir foi me lapidando. Carros, joias ou títulos perderam o valor porque eu não podia utilizar nada disso nem pra ir ao banheiro.

E eles tinham a maior paciência quando eu gritava e chorava. Minha mãe fazia um carinho tão bom e meu pai saia de perto pra chorar. Eu sei que ele chorava. Minha irmã começou a engordar de tanta tristeza e até as crianças tentavam me dar carinho e eu de carranca. Eu me arrependo muito. Só preciso dizer que eu me arrependo porque eu tive tempo de sobra e podia ter demonstrado o carinho e a afeição que eu sinto hoje. Se eu fosse melhor, se eu tivesse a cabeça no lugar, eu teria aproveitado cada instante ao lado deles. Eu fui tão inútil porque eu queria a correria e os cargos, os prazeres da matéria, mas não percebi que eu tinha muito mais que isso.

Eu tive tanta gente comigo e recebi tanto. Me perdoem do fundo do coração. Eu sinto tanta saudade de todos vocês. Nem sei como posso dizer que eu sinto muito. Eu adorei mãe cada carinho seu e não sofra por mim. Eu estou tão bem, mãe. Eu nem mereço tudo isso. Eu fui covarde. Tudo isso pra ver se eu sentia e eu só senti aqui de saudade. Agora eu sinto mãe. Eu sinto muito. E você foi a melhor em tudo. Me deu força, apoio e um amor imenso mãe.

Consola meu pai, fala que ele nunca errou comigo. Ele deu tudo o que pode, eu que não entendi, fui imatura e orgulhosa. Eu sempre quis mais do que merecia mãe. Fala pra Gabriela que ela é linda desse jeito sim. Ela é tudo de bom e eu peço perdão pelo que falei pra ela. Perdão irmã. Eu sinto muita saudade e tenho que me tratar de tantas coisas ainda. Eu vou conseguir. Vocês também. A vida não acaba é só um espaço de tempo. Que Deus abençoe a bondade de vocês.
MILENA
20/08/17



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